domingo, 4 de outubro de 2009

ESCOLA DA PONTE (AMIGA)

Quem trabalha com educação, certamente, ouviu falar em Rubem Alves, ou mesmo já leu algo sobre este autor.

Ligado ao nome do estudioso e educador Rubem Alves está, entre tantos outros assuntos voltados à educação, a Escola da Ponte.

A Escola da Ponte era um sonho, porque sempre acreditei em uma educação diferente voltada para o ser humano e que a mudança se daria a partir disto. Só que tinha um detalhe que me atraía mais na Escola da Ponte, era, justamente, como isso funcionava na realidade.

Cheguei à cidade do Porto, ainda era cedo, menos de dez da manhã. De lá peguei outro comboio que me levaria à Vila das Aves, uma Vila com onze mil habitantes, no meio do mato.

Quando ia fazendo o trajecto de ida e me afastando da vida urbana, ficava a pensar e tentava fazer uma ponte entre aquela que um dia sonhou em conhecer e aquela que se aproximava da Ponte, muita coisa mudou. O sonho agora estava bem próximo e para falar bem a verdade, nem sei quantas coisas pensei mais, mas sabia que estava perto de realizar. Incrível este trajecto do pensar e do materializar.

Tudo que alguém imaginar em espaço físico e conforto, deve esquecer. Se alguém pensar que lá há vários computadores de ponta e uma biblioteca do tamanho do mundo, seria melhor esquecer também. Móveis novos? Esqueçamos! Cantinas modernas? Nem pensar! Paredes? Nem em sonho! Brinquedos de última geração? Bem, se pensarmos assim, nem vamos à Ponte! As “crianças” brincam com pneus, brincadeiras de adivinhações, joguinhos feitos com os próprios recursos, como fazíamos em nossa infância. Engraçado isto, porque fico a lembrar as escolas que conheci que tinham tudo que a Ponte não tem, entretanto

Então, pensaria quem não conhece a Ponte, o que há na Escola da Ponte? Há o que eu nunca vi na minha vida. E, quando Rubem Alves escreveu sobre a Escola, eu compreendia, todavia não entendia. Somente consegui assimilar o que ele escrevia, quando lá estive.

Quem me mostrou a Escola foi uma menina, de oito anos, que apressada tentava se livrar de mim para poder voltar aos estudos. Daí até lembrei de uma vez que ministrava em um colégio e sempre me questionava porque os alunos preferiam ficar no corredor ao invés de estarem dentro das salas de aula, talvez, esta menina consiga explicar. E, antes de conhecer a Escola, antes do sinal bater, sinal imaginário porque lá não há sinetas, nem campainhas, muito menos alguém chamando os alunos no pátio. Eles, aos poucos vão em direcção às salas, até o pátio esvaziar. Inclusive, de repente, vi-me sozinha, porque eles tinham compromissos. Então, como dizia, antes de conhecer a Escola, resolvi conversar, aleatoriamente, com alguns alunos. Hora sentava, hora ficava em pé. E, eles sempre respondendo o que eu perguntava. Mas, a resposta era sempre a mesma. Quando eu dizia: Por que gostam de estudar aqui? eles diziam: é diferente!

O sinal imaginário tocou, eles foram e eu fui atrás. Cena engraçada aquela, do nada, todos sumiram. Fui encontrá-los dentro da sala de aula, sendo monitorada pela menina apressada.

Mas, antes de tudo isso, quando cheguei à Escola não havia aluno algum. As duas secretárias que me atenderam gentilmente e me informaram que eles não estavam, disseram-me também que eu poderia encontra-los na assembleia. Uma assembleia que eles fazem semanalmente para saber e resolver os acontecidos da escola. Incrível! Dirigi-me até o cinema da Vila para encontrá-los e lá estavam. Sentados, num silêncio absoluto, escutando o que cada colega tinha a dizer. Com uma mesa composta por cada aluno de cada ano, a assembleia ia sendo conduzida. Pensei, cadê aqueles que pedem silêncio, que coordenam tudo? Ali não era preciso. E, entre todos havia um grupo de alunos especiais, que completavam o todo.

Tivemos uma pausa para o almoço e depois seria o reinicio das aulas e antes disso foi que conversei com alguns. Eles me explicaram porque tudo era diferente e entendi. É mesmo diferente. Aprendem o conteúdo por meio de dispositivos, ou seja, um ajudando o outro. Ah! Mas, quem lê isso deve ficar pensando da mesma forma que eu pensava quando lia algo sobre a Ponte. Se pudesse dar um nome, daria como uma corrente do aprender, ou uma bola de neve de conhecimentos. Teve uma hora que comecei a rir sozinha, porque André, de nove anos, explicou-me que a matemática ele aprende pesquisando e quando está pronto, digo, preparado, pensando que está apto ao conteúdo, ele lança no dispositivo que está pronto para fazer a avaliação. Que coisa isso! Resumidamente, é o André quem determina o momento de responder por aquilo que aprendeu.

Na parte superior da escola encontrei a arte, na concretização da palavra, alunos pintando, confeccionando ao som de Bach, sim. Johann Sebastian Bach.

Penso que ficaria escrevendo anos seguidos sobre a Escola.

No final, depois que conheci tudo, a minha guia entrou para sala de aula e fui me despedir das secretárias. Então, uma delas perguntou se eu gostaria de falar com alguma professora da escola. Pensei, rapidamente, que já havia feito isso, mas que aceitava falar com a coordenadora da Consolidação (Termo usado para coordenação do Ensino Fundamental I).

A menina Sara apareceu, deveria ter, no máximo, 30 anos. Começamos a conversar e falei com ela daquele sonho antigo, então ela me disse: ficaste decepcionada? Ela falando sobre o que eu imaginava e o que via, em condições físicas. Daí disse para ela, bem pelo contrario Sara, é vendo que a gente entende tudo que acontece aqui.
Comprei uma camiseta, tamanho dois, nem é para usar é para guardar no coração, despedimo-nos e sai da Escola. Quando cruzei aquele portão, rumo à estação de comboios, sabia que iria voltar.

Percorri todo caminho de volta à Lisboa, com outro sonho, penso que bem maior do que tinha.

Silenciosamente, aqui dentro do meu coração e ainda emocionada, penso que nós, professores, deveríamos fazer a ponte e repensar todo conceito de ensinar.

Esquecendo paradigmas, rumando para o necessário e o novo, quero, também, juntar-me a Andre, Lívia, Baltazar, Mateus, Gabriel, para que eles me ensinem como se faz para aprender e ser tão grande.

Gislaine Becker


Doutoranda em Ciência da Educação

1 comentário:

  1. Escolas e escolas... tenho pensado muito sobre como sustentar um bom Projeto Pedagógico e, consequentemente, uma escola com "E".Há alguns anos tenho conhecido alguns porém diferenciam-se da Ponte justamente em um dos argumentos mais comuns utilizados por quem não quer mudar: Mas aqui é diferente. Quando fazem esta afirmação, referem-se à estrutura física, ao apoio das famílias ou do governo, ao perfil das crianças e assim por diante. São desculpas e mais desculpas. Ao conhecer a Ponte o que até então era impossível se coloca diante de todos. Estrutura fisíca sofisticada, crianças e famílias idealizadas e apoio governamental? Nada disso. Lugar simples, quase simplório, crianças reais e famílias, quando existem, colaboradoras. Mas então como a Ponte vive ou sobrevive? Embora a resposta pareça óbvia, é mesmo a partir do óbvio que nos surpreendemos: o Projeto da Ponte vive nos seus educadores, nos seus alunos, nas suas paredes, no seu pequeno jardim, na sua redondeza, na região, no País e no mundo. A Ponte esparramou surpresas, desafios, obviedades , contradições, lamentos e alegrias. Tudo depende dos "olhos " de quem a conhece.

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