quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Um olhar a Ponte

Sempre tive a ideia, desde miúdo e durante muitos anos, que a escola era um sacrifício necessário para todos e obrigatório para alguns. O que acontecia na época, era que as crianças e jovens desfavorecidos e cujos pais ou educadores não tinham possibilidade de suportar os encargos escolares, começavam a trabalhar muito cedo. Era frequente crianças com 10 anos e até mais novas, abandonarem a escola para poderem contribuir para as incomportáveis despesas domésticas da sua família.
Hoje, à distância de 3 ou 4 décadas, isso é quase inacreditável para quem não viveu esses tempos. Hoje, mesmo para muitas dessas pessoas, agora adultos na casa dos 50 anos, a continuação dos estudos serviu apenas para justificar a progressão das suas carreiras profissionais e não para se enriquecerem cultural e civicamente.
Trinta e cinco anos passados após o 25 de Abril de 74, tudo deveria ter mudado radicalmente mas tal não aconteceu.
O nosso ensino continua, em grande parte, desligado da realidade e cumprindo apenas e mecanicamente programas pré-fabricados pelo poder vigente, com a preocupação única do sucesso escolar (leia-se não reprovações), continuando a dar razão à velha máxima “consegui aprender apesar de ter ido à escola”.
Há poucos anos atrás, descobri que há alternativas a este estado de coisas e que é possível uma escola viva e actuante, onde as crianças aprendem com prazer e com responsabilidade, onde nada lhes é imposto e tudo é decidido por elas próprias em assembleias. Uma educação para a cidadania é o princípio praticado na Escola da Ponte em Vila das Aves, uma escola visitada por professores, pedagogos, filósofos, estudiosos e curiosos de todo o mundo, como se se tratasse de um fenómeno a ser estudado em laboratório, talvez a “Escola do Futuro”. Esquecem-se os distintos autores de tantos artigos, estudos, reportagens jornalísticas e televisivas que esta escola existe e funciona há mais de 30 ANOS com reconhecido êxito. É um escola onde se aprende tudo o que é importante aprender, incluindo aquilo que se ensina na escola tradicional, mas de uma forma solidária e não convencional, sem turmas, sem classes, sem professores autoritários a ensinar de forma obrigatória aquilo que ninguém quer aprender.

Sim, é isso mesmo! É uma escola diferente, onde os alunos aprendem o mesmo que os outros e muito mais, aprendem a viver e fazem-no com a alegria que eu gostaria de ter sentido durante a minha vida escolar. Se todas as escolas seguirem este exemplo o ensino terá cumprido o seu papel de ensinar e deixar saudades a todos este passado feliz.


Armando Dourado

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